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Âncora 1

Intervenção

E os animais? Sociabilidades mais que humanas nos desastres

Outras reflexões

Reflexões sobre a insegurança pública (PDF)

Michel Misse (17/05/2024)

Ana Paula Perrota

UFRRJ

Acervo Grad

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A água no subsolo da loja baixou e revelou pelo menos 38 corpos de animais, entre aves, peixes e roedores, que foram retirados pelos policiais. Além disso, os investigadores conseguiram confirmar, também, a importante informação dada por testemunhas de que os funcionários haviam se preocupado em salvar equipamentos eletrônicos do estabelecimento, subindo-os para o mezanino — procedimento que não se repetiu em relação aos bichinhos. (1)

 

Até bem pouco tempo atrás, poderíamos dizer que em uma situação com a das fortes chuvas que provocaram tragédias de múltiplas dimensões no Rio Grande do Sul, a preocupação com os “bichinhos” não teria tanta repercussão como a expressada pela indignação diante do caso acima, amplamente noticiado, de funcionários de uma pet shop que preferiram salvar computadores a animais. Hoje, contudo, observamos diversas manifestações, individuais e coletivas, se posicionando contra as situações em que animais são deixados para trás. E, ao mesmo tempo, vemos a mobilização de grupos voluntários que se dispõem a salvar vidas animais. Podemos, então, nos perguntar: que conta moral a respeito da valorização da vida é feita nessas decisões — de salvar ou não vidas animais —, que considera ainda o valor econômico desses seres? A resposta sobre como se efetiva o valor da existência não é simples, como já demonstramos eu e um colega (WERNECK e PERROTA, 2024). E desde que teve início a atual onda de chuvas no Rio Grande do Sul, no início de maio, esse tema tem ganhado capas de jornal, capturado a atenção do governo federal e mobilizado recursos, humanos e financeiros, da população em geral e de grandes personalidades midiáticas.

 

Por todos os lugares, passamos a observar manifestações de comoção com as imagens dos milhares de animais também afetados pelo desastre causado pelos deslizamentos e inundações. Como caso que já se tornou emblemático, acompanhamos ao vivo o resgate de um cavalo que logo ganhou o apelido de Caramelo: ilhado no teto de uma casa em Canoas (RS) por 24h, o animal foi resgatado por uma equipe do Corpo de Bombeiros de São Paulo, que, juntamente com médicos veterinários, sedaram o animal e o transportaram em um bote. Caramelo, agora singularizado por um nome, e não mais tido como um indivíduo genérico da sua espécie, se tornou um dos símbolos da superação desse desastre. Mas para além desse caso notável, as mídias jornalísticas reportam diariamente os esforços para os salvamentos dos animais, atendendo a certo clamor público.

 

Alguns têm falado que a partir do que vem acontecendo no RS houve uma virada de chave no tratamento de animais em tragédias. De fato, há uma mudança de paradigma, mas ela não começou agora. Na tarde de 25 de janeiro de 2019, a barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) se rompeu. Eu estava em casa no momento da tragédia e, assim que vi a notícia (pelo computador ou talvez pelo celular), liguei a TV. Estava atônita, pois me lembrava muito bem de quando vi, poucos anos antes, em 5 de novembro de 2015, a notícia do rompimento da barragem em Mariana, no subdistrito de Bento Rodrigues (também MG) Não acreditava que a mesma coisa havia se repetido: o rompimento de outra barragem, também ligada à Vale. Naquela primeira ocasião, estava me descolocando para o trabalho e passei a acompanhar as imagens e notícias aterradoras pelo smartphone. Nem nos sonhos ou nos prognósticos mais pessimistas pensava que um crime dessa magnitude pudesse ocorrer — e não apenas uma vez, mas duas, e em um curto espaço de tempo.

 

Alguns anos antes, em 2012, a Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, recebeu um outro reconhecimento de igual proporção: o de pior empresa do mundo — por uma “premiação” realizada desde 2000 pelas ONGs Greenpeace e Declaração de Berna. Na época, justificou-se que a empresa tinha uma “longa trajetória caracterizada por condições de trabalho desumanas, violações de direitos humanos e destruição do meio ambiente”(2). Não era, então, para serem surpresas os rompimentos das barragens do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e de Fundão, em Mariana. Mas, para muitos de nós, o foram.

 

Para mim, entretanto, houve ainda outra surpresa. Não no primeiro evento crítico, mas no segundo: em Brumadinho, me chamou atenção a evidência dos animais em meio a toda a tragédia. E aqui, poderíamos dizer, isso também não era para ser uma surpresa.

 

Agora, no Rio Grande do Sul, a problemática animal saltou aos olhos de todos nós, talvez como jamais antes. De fato, como pretendo sugerir aqui, havia já um movimento crescente e em transformação sobre a preocupação com os animais, de mobilização de ações para seu resgate e de maior visibilização dessa problemática, cada vez mais conhecida pelos agentes do setor público e pela população em geral. Mas os impactos das chuvas em várias cidades do RS, incluindo a capital, Porto Alegre, atingiram um patamar inédito. Não tanto em número de mortos: até o momento em que concluo este texto, são contabilizados 171 mortos e 43 desaparecidos. Para efeito de comparação, a tragédia ocorrida na Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011, quando fortes chuvas provocaram enchentes e deslizamentos, registrou 918 mortos e 100 desaparecidos. Mas, no caso atual, relatórios indicam que 467 das 497 cidades do RS foram afetadas, resultando em, além das mortes, 647,4 mil pessoas fora de casa — somando quem está em abrigo e quem está desalojado, ou seja, na casa de parentes ou amigos(3). Isso sem contar toda a infraestrutura afetada ou mesmo destruída.

 

Chamo atenção para esses números para tentar demonstrar como que a nova dimensão em que a questão dos animais passou a ser tratada no estado gaúcho não tem a ver apenas com o processo de crescente preocupação com os animais que mencionei, mas está relacionada também à proporção do desastre. Bom, mas vamos do início, pensando a partir de um contexto sócio-histórico, em diálogo com o debate sobre a moral, sobre a presença dos animais nos desastres, bem como sobre a preocupação com suas vidas.

 

Voltando então a contar a história de Brumadinho, quando comecei a assistir à cobertura jornalística, que já estava sendo transmitida ao vivo e em tempo integral, me deparei com uma imagem, feita por helicóptero, de um bovino atolado, tentando sobreviver em meio à lama que seguia seu curso. Naquele momento, em que os jornalistas ainda não haviam tido tempo de apurar as notícias, mas precisavam nos prender em frente à TV, a imagem transmitida por um longo tempo foi a desse animal. Para mim deu certo. Com o passar dos dias, continuei acompanhando a situação dos animais no desastre, que seguiu sendo reportada na intensa cobertura característica do trabalho jornalístico sempre que ocorre um evento como esse. A presença dos animais saltou aos meus olhos. Pensei, então, estar diante de um fato novo e passei a arquivar as reportagens.

 

Bom, mas por que não deveria ser uma surpresa que animais compusessem esse cenário socionatural desmantelado quando tem lugar um crime como esse? O Brasil é conhecido por sua biodiversidade, que inclui milhares e milhares de espécies em sua fauna silvestre. Além disso, conta com um dos maiores rebanhos do mundo e está entre os primeiros países do ranking de presença de animais domésticos. Desse modo, um desastre no distrito rural de Bento Rodrigues (MG), em Porto Alegre ou na região do Pantanal envolverá indubitavelmente milhares de animais. Surpreendente seria, portanto, se em situações como essa não houvesse animais afetados. Mas agimos, ou agíamos, como se eles não estivessem lá.

 

Ainda em 2019, quando as notícias sobre Brumadinho foram arrefecendo, comecei a imaginar a elaboração de um artigo científico abordando este tema, que até então considerava inédito: animais como vítimas humanitárias de desastres. Mas conforme avançava na pesquisa, tanto em relação com a bibliografia quanto aos atores sociais participantes voluntários nos resgates de animais em Brumadinho, entendi o que deveria ser óbvio: não havia ali nenhuma novidade. Ainda que o tema não recebesse ampla cobertura midiática e que os poderes públicos e privados não se ocupassem dele de forma substancial, já atuavam no Brasil e em outros países relativamente à preocupação com os animais não humanos quando ocorre um desastre. Como discuti no artigo mencionado (PERROTA, 2022), um evento decisivo tornou essa preocupação cada vez mais incontornável: a passagem do furacão Katrina, em 2005, em Nova Orleans, nos EUA.

 

Aquele desastre se tornou emblemático devido a uma política de resgate que foi, ou passou a ser considerada, trágica: no processo de retirada dos moradores, estes denunciaram ter sido impedidos por socorristas de levar consigo seus animais. Relataram que foram forçados a abandonar cães e gatos durante o salvamento, sob ameaça de serem presos. Essa proibição se deu porque a legislação impedia o transporte de animais em veículos públicos. Os de estimação foram então deixados para trás, diante da impossibilidade de serem levados nos transportes utilizados (barcos, helicópteros, veículos de emergência) e de serem mantidos nos abrigos em que os moradores removidos eram alojados. Ao longo dos seis dias que se sucederam à passagem do furacão, como relata Leslie Irvine (2006), grupos interessados em resgatá-los, incluindo voluntários e tutores, foram impossibilitados de entrar em Nova Orleans por bloqueios policiais e militares. A autora aponta que, em decorrência disso, cerca de 2 mil animais foram propositalmente mortos, com a justificativa de que não haveria estrutura para acomodá-los e de que representavam risco de propagação de doenças zoonóticas.

 

O caso se transformou em um escândalo público. No ano seguinte, em 2006, o governo americano aprovou uma lei chamada Pets Evacuation Transportations and Standards Act (PETS Act). De acordo com informações apresentadas no site do Congresso dos EUA(4), o PETS Act visa garantir que os planos operacionais estaduais e locais de preparação para emergências atendam às necessidades envolvendo os animais domésticos e de serviços antes, durante e após os desastres. A lei assegura também que abrigos de emergência deverão acomodar as pessoas e seus animais.

 

Podemos dizer que leis como essa colocam em tensão duas perspectivas sobre os animais: aquela segundo a qual eles são tidos como vítimas humanitárias dos desastres e, logo, pensados como sujeitos a quem moralmente devemos proteção; e aquela em que são vistos são vistos como potenciais disseminadores de doenças, seres a quem não devemos atenção moral. E podemos dizer ainda que essa tensão se inscreve em uma forma de mobilização política que trata tanto da ideia que reivindica direito dos animais quanto da de posse responsável (OSÓRIO, 2013). Pois a perspectiva que busco desenvolver em minhas pesquisas é que alguns dos pressupostos morais relacionados à posse responsável, bem como à ética animalista, já orientam as políticas públicas destinadas aos animais, seja em eventos críticos seja em situações mais cotidianas — como no mercado da carne, por exemplo.

 

Como discuti no artigo mencionado (PERROTA, 2022), além do furacão Katrina, os incêndios em Victoria, na Austrália, em 2009, e as inundações, também em território australiano, em Queensland, na passagem de 2010 para 2011, são tidos como momentos em que a presença dos animais veio à tona. E há ainda outro aspecto a ser considerado, envolvendo também o Brasil: desastres de ordem natural e tecnológica, como os causados pela Vale, se tornam cada vez mais frequentes e mais graves. De modo que se constrói um campo de atuação política, de expertise técnica e de debate acadêmico que se alimenta o tempo todo e infelizmente com a recorrência desses eventos. Por isso falei de um panorama crescente de preocupação com os animais.

 

Olhando especificamente para o caso brasileiro, as pesquisas sobre Brumadinho me levaram a conhecer um agregado de voluntários em particular, o Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad). Na ocasião, em 2019, o grupo havia acabado de se organizar em torno dessa mesma sigla, mas com outro nome: Grupo de Resgate de Animais em Desastres. Ao tomar conhecimento dele, tentei me aprofundar, buscando obter informações sobre os participantes — quem são, desde quando atuam, como estão organizados etc. Foi quando descobri que se tratava de um grupo voluntário idealizado e liderado pela médica veterinária Carla Sassi.

 

Com a pandemia de Covid-19 e a verdadeira pandemia de lives que a seguiu, acompanhei cerca de uma dezena de eventos envolvendo o Grad. Neles, foi possível reunir um conjunto de informações que se encontravam dispersas pela internet. Fiquei sabendo que Carla atuou na Região Serrana do Rio de Janeiro, em Mariana e em outros desastres ocorridos entre 2011 e 2019. E que o mito de origem do grupo está ligado a sua atuação na Região Serrana, em 2011. A veterinária diz que, ao acompanhar as notícias do desastre pela TV de sua cidade, Conselheiro Lafaiete (MG), se perguntou: e os animais? Reuniu então algumas pessoas, encheu um caminhão com medicamentos e ração e se dirigiu com o grupo para a área afetada.

 

Em 2020, entrei em contato com integrantes do Grad, buscando obter entrevistas, mas suas agendas estavam sempre ocupadas. Em meados daquele ano, o Pantanal foi assolado por um dos maiores incêndios de sua história. Eles se dirigiram para lá e ficou adiada a possibilidade de uma entrevista, que continuou sendo adiada à medida que os desastres se sucediam. Em 2022, Petrópolis (RJ), mais uma vez, foi afetada pelas chuvas, contabilizando 235 mortos e 4 mil desabrigados. Naquele momento, tive certeza de que o grupo se deslocaria para lá, e de fato se deslocou. Organizei, então, uma pesquisa de campo às pressas, fiz contato com eles mais uma vez e, durante três meses, pude acompanhar o trabalho e conversar com alguns dos membros que permaneceram na cidade naquele período, de fevereiro a maio de 2022.

 

Durante a pesquisa, outras coisas se descortinaram para mim e uma delas é que não é possível falar em resgate de animais sem se levar em conta justamente o fato de que são, como definiu Donna Haraway (2021), espécies companheiras. Falar de animais nas ciências sociais, pensando neles mesmos, e não apenas como elementos simbólicos da existência social dos humanos, sempre causou certo estranhamento — hoje, sem dúvida, muito menos que há 15 anos, quando comecei a elaborar minha tese de doutorado sobre defensores dos direitos dos animais (PERROTA, 2015). Mas o importante é que o ar de desconfiança, acompanhado de uma hierarquização entre as vidas de humanos e animais, paira nos debates, por meio de uma contenção de recursos e de energia destinados ao salvamento de animais em momentos em que muitas pessoas se encontram em situação de vulnerabilidade estrutural, física, social e psíquica. Mas a questão é: animais, principalmente os de estimação, têm uma existência apartada da vida social? É possível falar em salvamento das vidas animais em si?

 

Conforme animais passam a ser considerados por cientistas sociais como novos atores a serem pensados a partir de uma sociabilidade mais que humana, entendemos que os fenômenos da vida social, diferentemente de como esses campos são organizados dicotomicamente no pensamento moderno, não se estabelecem a partir de tais separações. Entendemos que humanos e animais não coexistem no social de forma apartada, mas, ao contrário, que os fenômenos sociais se dão a partir de arranjos multiespécie. Em outras palavras, humanos e animais constroem uma vida social em comum. E paralelamente a essa questão epistemológica e metodológica, há outra a ser considerada: a questão política. Como já disse, grupos sociais se organizam para questionar a fronteira moral entre humanos e animais, e a partir de então podemos observar o surgimento de novos modos de relação multiespécie. Pois trato aqui da presença dos animais no desastre justamente a partir dessa abordagem.

 

Assim, se, por um lado, animais entram nas ciências sociais como novos atores que compartilham a vida social com os humanos, por outro, esse campo do conhecimento científico pode olhar para esse fenômeno a partir de uma temática particular, a da luta política pela inclusão dos animais na mesma comunidade moral que os humanos, buscando compreender as consequências dessa transformação nas diferentes situações em que os animais estão inseridos e são mortos — seja no mercado da carne ou nos desastres.

 

É por essa perspectiva que busco entender a “presença” dos animais nos desastres e a reversão de sua “invisibilidade”. A ideia é pensar como passa a haver uma crescente requalificação moral das atividades em que os animais estão inseridos em direção à qualificação de sua vida nos termos humanistas, como uma vida sagrada. Trata-se então de discutir sobre a invisibilidade seguindo Axel Honneth (2004), que aborda não a invisibilidade física, mas a moral, refletindo sobre as vidas não respeitadas, que não são consideradas vidas que importam. À medida que animais passam a ser “vistos” por essa nova lente moral, as ações que até então se concentravam em aspectos sanitários, preocupadas com a possível disseminação de doenças zoonóticas, se tornam um problema ético. E desse modo, o poder público é instado a entrar em ação e mesmo a criar o que até então não existia: um plano de ação para o resgate de animais, incluindo a destinação de recursos voltados para esse fim.

 

As ações de resgate, como venho acompanhando desde 2019, são fundamentalmente realizadas por voluntários. Em todas as localidades em que ocorre um desastre, encontramos sempre formas dispersas de organização voluntária. Contudo, o Grad vem se organizando, agindo e se consolidando como o principal grupo a fazer esse trabalho no Brasil. Suas ações já são conhecidas pela Defesa Civil Nacional e contam com ajudas operacionais governamentais. O grupo se estrutura financeiramente por meio de campanhas de doações em dinheiro. Ações como a criação de abrigos e hospitais de campanha e mesmo a solicitação de permissão para a entrada de animais em abrigos humanos são alguns exemplos do trabalho que seus membros vêm sistematizando em todo o país — todas preocupadas também com a disseminação de doenças entre animais e entre humanos e animais.

 

As chuvas no Rio Grande do Sul, uma tragédia sem precedentes, não esteve ao alcance do Grad, que já desenvolveu um protocolo sobre o que fazer e como fazer e em relação aos tutores e aos órgãos públicos de primeira resposta ao desastre, como a Defesa Civil. Nas centenas de municípios afetados, as pessoas se lançaram em ações de salvamento de animais, mas sem seguir necessariamente um plano sistemático de ação. E então nesse momento houve um avanço importante: o Grad assinou um termo de cooperação técnica com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul para assessorar os municípios no planejamento e na execução do trabalho a ser realizado. A partir disso, foi instaurado um Gabinete de Crise da Causa Animal e os voluntários passaram a integrar o Plano Estadual de Ações de Resposta à Fauna, igualmente criado em decorrência das chuvas. O governo federal também liberou recursos emergenciais para apoio aos animais — os munícipios poderão solicitar, cada um, até R$ 180 mil. Além disso, outra novidade é que produtos para animais, como ração e medicamentos, passaram a compor as listas de itens a serem doados para as vítimas.

 

A reversão da invisibilidade dos animais nos desastres é um enorme desafio, mas que precisa ser enfrentado. Na desarticulação do mundo da vida que uma tragédia como essa no Rio Grande do Sul promove, os animais são parte constitutiva. Pessoas morrem tentando salvá-los, se colocam em situação de risco para não os abandonar. Muitas vezes, quem sobreviveu, mas perdeu toda a sua família, trata os animais como o único elo com a vida anterior ao desastre. Portanto, para além da valorização em si das vidas animais, mesmo em uma comparação hierarquizante entre vidas humanas e não humanas, não se deve diminuir a importância dos recursos para seu salvamento. E se fizemos dos animais espécies companheiras, de fato deixá-los para trás se torna cada vez mais um grave problema ético — e nada fácil de resolver, já que exige do poder público um plano de resposta para eles, para que sua preservação não dependa unicamente de trabalho voluntário. Recursos financeiros e expertise técnica são fundamentais para salvar animais, sejam eles de pequeno ou de grande porte, com temperamento dócil ou feroz, tanto nas áreas urbanas como nas rurais, sob condições estruturais e climáticas complexas ou não. E embora ainda reste muito por fazer, já avançamos desde 2011 no Brasil.

 

Sugestões de leitura

HARAWAY, Donna. O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

 

HONNETH, Axel. “‘Visibilité et invisibilité': Sur l’épistémologie de la ‘reconnaissance’”. Revue du MAUSS, n. 23, pp. 137-151, 2004/1.

 

IRVINE, Leslie. “Animals in Disasters: Issues for Animal Liberation Activism and Policy”. Animal Liberation Philosophy and Policy Journal, vol. 4, n. 1, 2006.

 

OSÓRIO, Andréa. “A cidade e os animais: Da modernização à posse responsável”. Teoria e Sociedade, vol. 21, n. 1, pp. 143-176, 2013.

 

PERROTA, Ana Paula. “Animais domesticados e desastres: Entre a preocupação sanitária e humanitária”. Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS), vol. 37, n. 108, e3710811, 2022.

PERROTA, Ana Paula. Humanidade estendida: A construção dos animais como sujeitos de direito. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

WERNECK, Alexandre; PERROTA, Ana Paula. “O preço da estimação: Um estudo de despesas veterinárias como elementos de valorização da existência de animais de companhia”. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, vol. 56, n. 1, e56596, 2024.

Notas

1 Ver: LEAL, Arthur. “Funcionários de pet shop salvaram eletrônicos e deixaram animais para trás em enchente no RS, diz polícia; 38 corpos foram achados: Policiais e agentes do Ibama encontraram cenário de terror, nesta quinta-feira, em nova perícia feita na loja da Cobasi, que fica em shopping de Porto Alegre”. O Globo, Brasil, SOS Rio Grande do Sul, 23 maio 2024.

2 Ver: HELAL FILHO, William. “‘Oscar da Vergonha’: Mineradora Vale foi eleita pior empresa do mundo para meio ambiente e direitos humanos em 2012”. O Globo, Blog do Acervo, 30 jan. 2019. 

3 Ver: G1 RS. “Cheias no RS: número de óbitos sobe para 169; veja situação do estado: Temporais atingiram o Rio Grande do Sul a partir de 29 de abril, provocando cheias em diversas regiões do estado”. G1, Rio Grande do Sul, 20 maio 2024. 

 

4 Ver: H.R.3858 - Pets Evacuation and Transportation Standards Act of 2006. Acesso em: 05 fev. 2020.

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ANA PAULA PERROTA (anapaulaperrota@ufrrj.br) é professora do Departamento de Ciências Administrativas e Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Instituto Três Rios (UFRRJ-ITR, Três Rios, Brasil), do Programa de Pós-Graduação em Ciências Socais (PPGCS) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas (PPGDT) da UFRRJ. É coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Socialidades Mais que Humanas (SOMAH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Ambiente, Território e Sistemas Agroalimentares, ambos da UFRRJ. Tem doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Brasil).

Publicado em: 03/06/2024

DILEMAS: REFLEXÕES é uma seção especial (blog) de DILEMAS: REVISTA DE ESTUDOS DE CONFLITO E CONTROLE SOCIAL (ISSN Eletrônico: 2178-2792; ISSN Impresso: 1983-5922) e é publicada pelo Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, integrante do INCT/CNPq INViPS. DILEMAS: REFLEXÕES não se responsabiliza por informações, opiniões e outros elementos dos textos aqui publicados. Estes são de inteira responsabilidade de seus autores

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