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Âncora 1
Nota 1
Âncora 2

Especial Artigo 5º

Uma pré-história das megaoperações policiais no Rio de Janeiro

Lucas Pedretti

UFRJ

Reprodução

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Chamada principal do jornal Luta Democrática, 22 de janeiro de 1955

Após o massacre perpetrado pelas polícias do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025, muitos de nós, acadêmicos e militantes críticos à ação, nos dedicamos a argumentar como a política do confronto, baseada em grandes operações policiais militarizadas, é colocada em prática há décadas, sem levar a qualquer melhoria concreta no combate à criminalidade. Nesse argumento, por vezes os anos 1980 são apontados como momento inaugural desse tipo de ação do Estado. Essa datação parece estar ligada a alguns elementos: o estabelecimento de uma nova ordem política com a redemocratização, que pode nos levar a tomar a Nova República como parâmetro temporal rígido; as transformações ocorridas naquela década na dinâmica criminal no Brasil e, em particular, no Rio de Janeiro, que produziram inflexões importantes no lugar da violência urbana e da segurança pública para a opinião pública e para as respostas estatais; a ideia mais ou menos difusa de que o problema da violência policial contemporânea é uma herança mal resolvida da ditadura militar, e que portanto são os limites da transição que explicam a predominância de uma lógica militarizada no trato do problema.

Este texto tem um objetivo singelo: por meio de notícias de jornal datadas dos anos 1950, 1960 e 1970, pretendo demonstrar que a política das operações policiais militarizadas em territórios de favelas não data dos anos 1980, mas tem pelo menos mais duas décadas de história. Nesse sentido, a intenção é simplesmente demonstrar que esse tipo de ação é colocada em prática, sem levar a qualquer melhoria concreta no combate à criminalidade, não há 40, mas há pelo menos mais de 60 anos. As fontes aqui trabalhadas têm sido reunidas no decurso de minhas atuais pesquisas e serão observadas de forma exploratória. Trata-se, portanto, de compartilhar alguns achados de pesquisas e fazer apontamentos iniciais sobre eles, sem a ambição de oferecer qualquer tipo de análise sistemática definitiva. 

Nesse sentido, a ideia é menos a de deslocar o momento da gênese das operações – dos anos 1980 para a década de 1960 – e mais sugerir que essa é uma prática que se alastra no tempo, e que deve ser compreendida no quadro mais amplo daquilo que Michel Misse caracterizou como a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Assim, a limitação temporal das fontes aqui analisadas – que, como já apontei, começam em meados dos anos 1950 – tem a ver com o fato de que se trata, ainda, de uma pesquisa em curso. Ou seja, é possível que, ao recuarmos mais no tempo, expressões ainda anteriores da prática sejam localizadas. 

De fato, em um artigo sobre a violência policial nas favelas e cortiços no início do século XX, o historiador Rômulo Mattos demonstra como, ainda em 1904, em meio à Revolta da Vacina, uma batida policial no Morro da Favela, atual Morro da Providência, mobilizou 180 policiais – o que certamente representa um contingente bastante significativo para aquele momento em que a primeira favela da cidade recém começara a tomar forma no horizonte urbano do Rio de Janeiro. De todo modo, o contexto era o de um conflito específico, que parece ter demandado uma mobilização excepcional da força. Até mesmo porque, como Mattos aponta no mesmo texto, eram ainda os cortiços, e não as favelas, os principais espaços de moradia das classes trabalhadoras cariocas naquele momento.

Nos anos 1950, as favelas já tinham crescido e se multiplicado pela cidade, tornando-se de fato um problema público – o “problema da favela”. Nesse contexto, as discussões sobre como “resolver” o “problema” já eram permeadas por uma importante diversidade de atores, e as propostas iam da remoção forçada, de um lado, ao associativismo, de outro. E entre os variados estigmas recaindo sobre esses espaços da cidade, a ideia de que a favela era um lugar perigoso já estava bastante consolidada. É nesse contexto que essas grandes ações policiais terão lugar, sendo naquele momento nomeadas ainda como “batidas” ou “blitze”. 

A primeira notícia a ser destacada, aqui, é de 22 de janeiro de 1955, e foi publicada no periódico Luta Democrática, mantido por Tenório Cavalcanti – como é notório, ele mesmo um personagem importante da longa história de acumulação social da violência no Rio de Janeiro – e marcado tanto pela oposição ao governo Vargas quanto pelo sensacionalismo em matéria criminal e policial. “Centenas de prisões na favela do Esqueleto”, noticiou o jornal naquela ocasião. Ainda no subtítulo da matéria, é apresentada a impressionante cifra de agentes que participaram da ação: “um milhar de policiais tomou parte na batida”. 

Não é só o número de policiais que chama atenção, mas também a quantidade de presos: “centenas”. De fato, esta parece ser uma característica bastante marcante das batidas em favelas naquele momento: baixa letalidade, mas altíssimo número de detenções. O que aparecia como justificativa e forma de legitimação para elas era a vadiagem, como se lê na mesma matéria: “Essa batida resultou na prisão de centenas de desocupados, homens que viviam à margem da lei” (grifos meus). No ano seguinte, ao noticiar a batida a uma favela no Leme, o mesmo jornal apontava: “sobem a dezenas o número [sic] de pessoas suspeitas detidas e levadas para o quartel do 2º Batalhão da Polícia Militar. Ali terão de provar sua condição de gente honesta e trabalhadora a fim de recuperar a liberdade” (Luta Democrática, 20 de julho de 1956). 

Com efeito, tanto os jornais da época quanto relatos orais de moradores de favelas coletados para minha pesquisa de mestrado indicam a persistência de uma prática que remontava pelo menos à Primeira República: o uso da “prisão por averiguação”. Na delegacia, então, a polícia fazia uma triagem para decidir quem ficaria detido e quem seria enquadrado na contravenção de vadiagem ou em outros crimes. Aqui, o grau de arbitrariedade e discricionariedade da polícia era altíssimo, sendo comuns relatos dando conta, por exemplo, de que três prisões por averiguação se transformavam em uma vadiagem. Desnecessário dizer que nesses casos, o mecanismo de filtragem policial, por excelência, era o racismo. 

 

Mas vale notar que a leitura dos jornais indica algum grau de legitimidade social dessa prática, uma vez que encontramos matérias em que a polícia era objeto de crítica por conta não do alto número de detidos, mas sim do alto número de pessoas liberadas após a averiguação. É o exemplo da notícia do Jornal do Brasil de 6 de abril de 1973: “Polícia prende no Morro dos Macacos 45 suspeitos mas só mantém 16 deles na cadeia”.

Observemos, então, um compilado de títulos de matérias publicadas no mesmo Jornal do Brasil ao longo dos anos 1960 e 1970, que nos permitem observar a extensão dessa prática de prisões maciças em batidas e blitze em favelas: 
 

Polícia prende 180 suspeitos em três favelas da Zona Sul (19 de março de 1963); 

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Cento e cinquenta prisões na batida gigante à favela (21 de março de 1963); 


PM prende 130 numa diligência pela madrugada na Catacumba (29 de janeiro de 1965); 

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‘Glostora’ e mais 195 foram presos na operação-limpeza na Favela do Jacarezinho (2 de dezembro de 1966); 

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Batida da PM [na Favela do Muquiço] resulta em 200 prisões (22 de julho de 1971); 


Polícia cerca a Mangueira, prende 200 e fecha dois pontos de venda de maconha (1 de outubro de 1971); 

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Polícia Militar em ação nos morros e no Centro prende quase 400 pessoas (3 de março de 1972); 


PM mobiliza 250 homens e prende quase 400 no morro do Borel e Favela Gásbras (20 de abril de 1972); 

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Mais de 50 são presos na [favela da] Várzea (4 de julho de 1972); 

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Batida na favela de Parada de Lucas tem 350 policiais e faz mais de 200 prisões (24 de abril de 1976); 

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Batida policial [no morro do Jacarezinho] prende 50 (29 de abril de 1976); 

Polícia faz 150 prisões em Ramos (22 de maio de 1976); 

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Polícia detém 485 [no Morro do Estado] em Niterói (29 de julho de 1976); 

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Polícia detém 141 na Rocinha (15 de outubro de 1976).
 

O que se observa é que operações mobilizando centenas de agentes e resultando em centenas de prisões já eram corriqueiras, estando longe de representar uma excepcionalidade. Da leitura dessas matérias, é possível identificar um amplo rol de práticas a expressarem a dimensão bélica e militarizada dessas ações, bem como as sucessivas violações de direitos por elas implicadas. Observemos, por exemplo, a descrição de uma batida na Favela do Esqueleto noticiada como manchete principal do JB de 15 de março de 1963 nos seguintes termos: “Exército e Polícia limpam a cidade: 500 prisões”.

 

Os 400 soldados da Polícia Militar, 80 soldados da Polícia do Exército e mais 40 Detetives da Delegacia de Vigilância e da DPPS chegaram à favela da Praia do Pinto às 8 horas da manhã de ontem, cercando imediatamente todas as saídas existentes. (...) Após guarnecidas as saídas, foram iniciadas as investigações nos barracos, biroscas e casas, sendo obrigados os moradores a permitir a revista e a exibir documentação. Quem não possuía prova de que trabalhava era conduzido imediatamente para fora da favela.

 

Alguns detalhes chamam atenção aqui: a presença de militares do Exército; as revistas arbitrárias nas casas sem qualquer tipo de mandato; a prática de fechar as saídas da favela e interromper a locomoção dos moradores. Quatro dias depois, uma nova batida na Zona Sul era noticiada da seguinte forma:

 

Com a presença do Governador Carlos Lacerda, que observou de um helicóptero a manobra policial, 800 soldados da Polícia Militar, auxiliados por 60 detetives da Delegacia de Vigilância, efetuaram na manhã de ontem uma blitz nos morros do Sacopã, Tabatinguera e Catacumba, na Gávea, prendendo cerca de 180 suspeitos de crimes e contravenções (Jornal do Brasil, 19 de março de 1963).

 

Vale notar como essas duas batidas ocorrem num contexto particular, em que o então governador da Guanabara anunciava uma política de endurecimento no combate à criminalidade. De fato, em 13 março de 1963, a Tribuna da Imprensa, jornal criado pelo próprio Lacerda, e que expressava editorialmente sua posição ideológica e política, anunciava: “Lacerda ordena ‘operação-limpeza’: criminosos na cadeia e morte a quem reagir”. O periódico transcrevia então uma nota oficial do governo do estado, segundo a qual Lacerda determinava “às autoridades policiais para que usem da máxima energia no desempenho de suas missões” e garantia “defensor a todo policial que, no cumprimento do dever, tiver que agir contra agressão de marginais”. Como se nota, discurso e prática antecipavam em décadas aquilo que até hoje aparece como a solução definitiva para a criminalidade.

 

Esse segundo ponto da nota do governo, que aponta para a garantia de defesa dos policiais, remete necessariamente à questão dos chamados autos de resistência. Vale destacar, nesse sentido, matéria do Jornal do Brasil de 1972, que relata como “policiais da Delegacia de Tóxicos mataram ontem à tarde, no morro da Providência dois traficantes de entorpecentes que resistiram à voz de prisão e fizeram uso de suas armas contra os detetives”. O tipo de relato é absolutamente semelhante ao que se lê até os dias de hoje, mas o seguinte trecho chama atenção pelo modo explícito como trata a questão da não responsabilização dos agentes do Estado: “o comissário anotou as declarações de Amim [um dos agentes], para que seja levado o auto de resistência que isentará de culpa os policiais que participaram do tiroteio” (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1972, o grifo é meu).

 

O que é também muito semelhante aos dias atuais é o relato dos familiares das vítimas. Vejamos trecho da matéria intitulada “Soldados da PM dizem que mataram homem na Cidade de Deus em legítima defesa”, que traz o seguinte depoimento de uma mãe: “‘Meu filho foi morto por vingança daqueles PMs. Eles colocaram aquela arma junto ao corpo. Ninguém deu revólver nenhum para o Marcos’”. A notícia dava conta, ainda, de que “além de acusarem os policiais de ‘matarem friamente o rapaz’, os pais da vítima levaram um comprovante de trabalho de Marcos José” (Jornal do Brasil, 30 de novembro de 1979).

 

Embora, como já dito, a letalidade dessas ações nem se compare ao que passamos a ver a partir dos anos 1990, quando as megachacinas começaram a ocorrer, também é possível perceber que não era incomum que as batidas resultassem em vítimas fatais. Incluindo aí crianças e adolescentes, como é o caso da matéria do Jornal do Brasil de 29 de julho de 1978, que fala sobre a morte de um jovem de 15 anos no morro da Providência. Segundo o jornal, “existem duas versões para a morte do menor: os policiais, que no morro apreenderam 160 papelotes de cocaína e prenderam seis pessoas, dizem quem Ailton os recebeu a tiros”, enquanto “os moradores da favela afirmaram que os soldados simplesmente fuzilaram o jovem”.

 

Como se nota, um mergulho nos jornais das décadas de 1950 a 1970 nos permite enxergar como há mais de seis décadas o poder público faz a opção política de promover o suposto combate ao crime por meio de grandes operações militarizadas e espetaculosas, marcadas pela criminalização dos territórios favelados, por discursos racistas e estigmatizantes, pelo cerceamento e pelas violações aos direitos dos moradores. São quase 70 anos de repetição, no curso dos quais, como nos ensinou Misse, a representação de violência foi apenas se acumulando socialmente, na medida em que o uso da força do Estado e o uso da força criminal se retroalimentam.

 

Aqui, esse mergulho foi apenas exploratório. Resta fazer uma história mais sistemática dessas ações, para que além de apontarmos as muitas e evidentes continuidades, possamos perceber também os momentos específicos de inflexão e mudança, vinculando-os aos diferentes contextos político-sociais – como é o caso do próprio massacre de outubro de 2025, que, sem dúvida, marca uma nova fase da longa história de megaoperações policiais no Rio de Janeiro.

 

Não se trata, portanto, de sugerir que desde os anos 1950 é a mesma coisa que ocorre. Antes o contrário: ao observar como essa prática transcorre e se transforma no tempo, podemos perceber a centralidade por ela ocupada na própria trajetória histórica das forças de segurança. Vejamos um breve exemplo para encerrar o texto. Em entrevista ao podcast “Fala, Guerreiro”, o coronel Paulo Cesar Amendola narra como foi sua entrada na polícia:

 

Em novembro eu entrei para a Polícia Militar. Fiz o meu curso, saí aspirante à oficial e pedi, espontaneamente, voluntariamente eu pedi para ir para o Batalhão de Polícia de  Choque. Que na época era o único Batalhão  ele tinha outro nome, Batalhão Motorizado – que fazia blitz em favelas. Tinha algumas favelas, não tão brabas quanto hoje existe, mas tinha certos problemas que elas apresentavam aqui na cidade. Então pedi para ir pro Batalhão de Choque para aprender na dureza das operações de repressão à criminalidade à época.

 

Do Batalhão Motorizado, Amendola foi então, em 1969, para o recém-criado Grupo de Operações Especiais da Secretaria de Segurança Pública da Guanabara (Goesp), embrião da Coordenadoria de Operações Especiais (Core) da Polícia Civil. De lá, voltou para a PM para idealizar e fundar, em 1978, o Núcleo de Operações Especiais (NuCOE), embrião do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar. A fala do coronel nos dá pistas, portanto, sobre uma história de aprendizado institucional de mais longa duração, ao apontar como o acúmulo de experiências nas blitze em favelas nos anos 1960 teve um papel importante para a constituição das duas forças policiais que hoje seguem à frente do genocídio perpetrado pelo Estado nesses territórios da cidade.

Sugestões de leitura

MATTOS, Romulo. “Violência policial em favelas e cortiços do Rio de Janeiro na Primeira República”. O Social em Questão, Ano XXV, n. 53, 2022, pp. 11-34.

PEDRETTI, Lucas. "'Homens de preto, qual é sua missão?'. As trajetórias e as memórias de dois pioneiros do Grupo de Operações Especiais da Guanabara". Contenciosa, n. 15, 2025. Disponível (on-line) em: https://bibliotecavirtual.unl.edu.ar/publicaciones/index.php/Contenciosa/pt_BR/article/view/14601. 

 

MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos: A acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2022[1999]. 

Outras reflexões

LUCAS PEDRETTI (lpedrettilima@gmail.com) é professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Necvu. É doutor em sociologia (Iesp/Uerj), mestre e graduado em história (PUC-Rio). É autor de Dançando na mira da ditadura: Bailes soul e violência contra a população negra nos anos 1970 (Arquivo Nacional, 2022) e A transição inacabada: Violência de Estado e direitos humanos na redemocratização (Companhia das Letras, 2024).

Publicado em: 29/04/2026

DILEMAS: REFLEXÕES é uma seção especial (blog) de DILEMAS: REVISTA DE ESTUDOS DE CONFLITO E CONTROLE SOCIAL (ISSN Eletrônico: 2178-2792; ISSN Impresso: 1983-5922) e é publicada pelo Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, integrante do INCT/CNPq INViPS. DILEMAS: REFLEXÕES não se responsabiliza por informações, opiniões e outros elementos dos textos aqui publicados. Estes são de inteira responsabilidade de seus autores

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