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Âncora 1
Nota 1
Âncora 2

Especial Artigo 5º

Violência, trauma e escárnio 

João Trajano Sento-Sé

Uerj

Paula Vieira Cotrim

Uerj

 Hermes de Paula/Agência O Globo

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Traumas sociais têm como um de seus desdobramentos possíveis mudanças substantivas nos grupos atingidos. Eles podem impactar elementos importantes da identidade social, redefinir a memória coletiva e reorientar perspectivas e projetos de futuro (ALEXANDER, 2012; HIRSCHBERGER, 2018). Sob eventuais efeitos de clamor público, experiências traumáticas têm o poder de induzir a adoção de novas políticas ou o descarte de antigas estratégias reconhecidas como inoperantes.

A brutalidade implicada na operação policial realizada no Rio de Janeiro em outubro de 2025 não tem paralelos na história recente do estado, a despeito da recorrência do uso dessa estratégia pelas autoridades de segurança pública fluminenses. Talvez o único episódio semelhante no Brasil do período pós-Constituição de 1988 seja o massacre de Carandiru. Também naquela ocasião a ação policial resultou em mais de uma centena de mortos, entre os quais muitos sumariamente fuzilados, como atestaram laudos periciais realizados posteriormente.

Experimentado como um episódio traumático, em que uma agência do Estado faz uso da força de maneira absurdamente desproporcional ao que as circunstâncias impunham, o massacre de Carandiru teve como único desdobramento consistente e duradouro a criação e consolidação do PCC no interior do sistema prisional paulista. A experiência do trauma pode desencadear fluxos de ações absolutamente imprevisíveis, inesperadas e indesejáveis para os envolvidos.    


A magnitude da brutalidade e o elevadíssimo número de mortos parecem, contudo, ser os únicos traços em comum entre a experiência paulista e o episódio infame ocorrido no Rio de Janeiro pouco mais de três décadas depois. A julgar pelos relatos e pronunciamentos após o ocorrido, a polícia de São Paulo não tinha propriamente um plano de ação que fosse além de pôr fim o mais rápido possível à rebelião no interior do presídio. Reativa ao movimento dos presos, a atuação policial evidenciou uma larga dose de aleatoriedade e improviso. A despeito dos esforços para manter a imagem de autoridade e de controle sobre o desenrolar dos eventos, as autoridades paulistas mal disfarçavam o constrangimento ao tentar justificar publicamente o episódio e a ação das forças sob seu comando.  Algo muito diverso ocorreu no Rio de Janeiro.

Ainda no trágico dia 28 de outubro, as autoridades vieram a público celebrar o massacre como um marco na segurança pública fluminense. Todo o enredo foi abordado por elas como uma necessária, corajosa e bem-sucedida ação contra o chamado crime organizado. O governador saudou os profissionais de polícia engajados na operação e seus comandantes pela efetividade e bom uso da inteligência. Os responsáveis pela segurança pública detalharam com orgulho cada passo, cada aspecto da estratégia adotada para erradicar os “delinquentes” ali capturados ou mortos. Já no dia seguinte, as primeiras pesquisas de opinião davam conta da parcela expressiva da sociedade que apoiava a operação. Desagregado pelos diferentes estratos sociais, mesmo nos segmentos mais diretamente afetados pelo excesso de violência comumente mobilizada pelas forças do Estado em ações desse tipo, o apoio à ação revelou-se o posicionamento majoritário da população.  


Um dos elementos mais desconcertantes e dolorosos da operação no Complexo do Alemão e na Penha em outubro de 2025 é que, a despeito de sua brutalidade e das 125 vítimas letais, ela não foi experimentada como um trauma. Isso é assustador. Impõe-se aí um desafio para o analista da vida social. Como pode uma parcela majoritária da sociedade não se deixar impactar por um episódio como esse? As linhas a seguir são um breve e primeiro esboço de interpretação, destacando um dos muitos aspectos a serem levados em conta para entendermos essa recepção. Nossa interpretação está ancorada na ideia de escárnio.   

O escárnio é uma atitude ou mecanismo retórico pelo qual se manifesta, zombeteiramente, desprezo ou repulsa por algo ou alguém. Mobilizado publicamente, o escárnio em geral expõe seu objeto ao ridículo e o rebaixa a uma condição humilhante. Ele pode tanto trazer em si um elemento crítico do status quo, quanto pode reiterar hierarquias e reforçar mecanismos de controle e submissão. Independentemente de quem a que se endereça, seu efeito é fundamentalmente desqualificador e focado no rebaixamento daquele a quem se dirige.


Diferentemente do horror embutido nas reações de agências nacionais e internacionais de garantia de direitos, da quase euforia autorreferida manifestada pelo governador do estado e da afetação aparentando controle técnico exibida pelas autoridades da segurança pública, longe dos holofotes da grande imprensa, as intervenções proferidas no plenário da assembleia legislativa estadual por parlamentares vinculados a partidos de suporte ao governo lançaram mão de um recurso comum naquela casa quando o assunto é segurança pública: ao celebrarem a operação, escarneceram de seus críticos e das vítimas.

Olhar para o que se diz nas casas legislativas é tão ou mais importante do que observar o que os seus membros fazem do ponto de vista da produção legal. Afinal, o parlamento é, ou deveria ser, por definição um lugar privilegiado em que o público fala. No caso da segurança pública, um campo cujas diretrizes são definidas pelo poder estadual, as posições assumidas pelo legislativo distrital são relevantes não somente em seus aspectos legais e administrativos, mas, também, em suas perspectivas políticas e simbólicas. Ainda que distante dos canais regulares da mídia de massas, as reações e posicionamentos assumidos no plenário da assembleia reverberam e têm impacto.

Deixa eu falar uma coisa para vocês: chacina? Chacina não, meu amigo, é limpeza. Como diz minha mãe, pelo menos uma vez por mês com os profissionais que tudo dá certo. Coloca para você ver. Porque esses caras, vagabundo se reproduz igual coelho, sai de tudo que é canto. Faz uma vez por mês, não custa nada. (...) Vagabundo com fuzil, sete palmos do chão. Você está com fuzil, meu amigo? Não tem conversa. Então, uma coisa eu falo. Chacina não. Foi faxina. E que seja feita como diz minha mãe, pelo menos uma vez por mês pra gente deixar o Rio de novo limpinho ​(India Armelau; 29/10/2025. Acesso em: 21 mar. 2026, 16h).

Pronunciado no dia seguinte à operação, o discurso dessa deputada filiada ao Partido Liberal (PL) lança mão de um trocadilho vastamente utilizado na Alerj sempre que vem à tona o debate sobre uma operação policial com elevado número de mortos. A alusão à faxina remete à alegada sujidade moral dos atingidos letalmente pelos policiais. Ao mesmo tempo, inscreve a operação na modalidade de atividades rotineiras e pueris, marcadas pelo imperativo de proceder regularmente à limpeza do ambiente. A figura do vagabundo os desqualifica, desumaniza e, consequentemente, banaliza a violência envolvida em suas mortes. Elas decorrem de um procedimento comum que deve ser realizado rotineiramente com o intuito de manter o Rio de Janeiro limpo, como fazemos em nossas casas.


À banalização da morte se associa um procedimento quase exclusivamente burocrático. Esse é o efeito mais evidente do mote também fartamente utilizado por deputados vinculados a partidos de apoio ao governo estadual, quando se reportam às vítimas como “CPFs cancelados”.

 

Eu, por óbvio, poderia estar no meu âmago, comemorando as cenas como uma vingança por parte do Estado daqueles criminosos mortos, ceifados do nosso convívio com os CPFs cancelados. Por óbvio, eu como um cidadão de bem e que luta contra a criminalidade, que defende as forças de segurança, poderia meramente chegar aqui no discurso contraditório àqueles que defendem os direitos humanos exaltar os corpos assassinados, ceifados do nosso convívio pelas forças de segurança que reagiram à injusta agressão, porque o indivíduo que escolhe, por conta própria, portar uma arma de guerra, ele tem que ser abatido pelo Estado (Rodrigo Amorim; 29/10/2025. Acesso em: 21 mar. 2026, 15h).

 

Também aqui, o parlamentar do PL, partido da base de apoio ao governador, celebra a operação. Mais do que política, a ação é veiculada como portadora de um conteúdo moral, uma vez que erradica do convívio social a ameaça representada pelos “criminosos mortos”. A ideia de rotina, mobilizada pela metáfora do CPF, é reforçada pelo uso da metáfora do abate, prática em geral realizada em série e dirigida a animais. Temos, então, num mesmo trecho do discurso do parlamentar uma dupla desumanização, reforçada pela naturalização das implicações da operação militar. 


Intervenções como as duas aqui destacadas se reproduzem no contexto do debate travado na Alerj, nos dias imediatamente posteriores à operação de outubro de 2025. Elas se reproduzem também ao longo do tempo. Elas aparecem, com ligeiras alterações e outros componentes semelhantes, quando da ocorrência de outras intervenções policiais semelhantes, com alto número de mortes. Elas próprias tornaram-se peças da rotina parlamentar fluminense.

 

A aproximação metafórica da operação policial e das mortes por ela provocadas a procedimentos rotineiros neutraliza a excepcionalidade típica dos eventos traumáticos, minimizando, simultaneamente, a extensão de sua brutalidade. Ao mesmo tempo, a jocosidade inerente ao uso de trocadilhos rebaixa os acontecimentos e suas vítimas ao risível, tornando as circunstâncias envolvidas e os resultados produzidos objetos de escárnio e humilhação. Enunciadas numa casa legislativa, por parlamentares sufragados, falam muito do ambiente deflagrado e atravessado mais por sentimentos disruptivos do que propriamente pela ponderação e análise crítica. Lidam com as estratégias por eles advogadas como imperativos morais, em lugar de escolhas políticas. Desqualificam vítimas, adversários e críticos do que defendem usando indistintamente os mesmos recursos, escarnecendo indistintamente de vítimas letais, seus familiares e comunidades atingidas. E o que foi exposto aqui representa apenas parte de um problema amplo e profundo.
 

Sugestões de leitura

ALEXANDER, Jeffrey C. Trauma: a social theory. New York, Polity Press, 2012.

HIRSCHBERGER, Gilad. “Collective Trauma and the Social Construction of Meaning”. Frontiers in Psychology, v. 9, 2018, pp. 1- 14. 

Outras reflexões

JOÃO TRAJANO SENTO-SÉ (joaotrajanosentose@gmail.com) é professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (1992), mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989) e doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (1997). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Teoria Política Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: violência, cultura política, segurança pública, nacionalismo e políticas públicas.

PAULA VIEIRA COTRIM (cotrim.paula@posgraduacao.uerj.br) é  analista de comunicação na empresa Nexus. É mestranda em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Tem interesse na área de Ciência Política, com ênfase em Violência e Segurança Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: violência e segurança pública e Alerj. 

Publicado em: 29/04/2026

DILEMAS: REFLEXÕES é uma seção especial (blog) de DILEMAS: REVISTA DE ESTUDOS DE CONFLITO E CONTROLE SOCIAL (ISSN Eletrônico: 2178-2792; ISSN Impresso: 1983-5922) e é publicada pelo Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, integrante do INCT/CNPq INViPS. DILEMAS: REFLEXÕES não se responsabiliza por informações, opiniões e outros elementos dos textos aqui publicados. Estes são de inteira responsabilidade de seus autores

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