Especial Artigo 5º
A matança do Rio:
o sacrifício da juventude pobre no altar da lógica capitalista da guerra contra os grupos armados
Marcelo Baumann Burgos
PUC-Rio
Reprodução

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O barulho do aplauso mórbido à fúnebre operação policial realizada no Alemão e na Penha, no fatídico 28 de outubro de 2025, se explica, em grande medida, pela ausência de políticas (e mesmo de propostas), no Rio de Janeiro, de fato voltadas para garantir segurança às pessoas que moram nas favelas. Vale dizer, de políticas direta e indiretamente voltadas à segurança, que deveriam incluir a dimensão social e melhorias urbanas contínuas. Na falta delas, vencem a resignação, o fatalismo, e a descrença nas instituições, incluindo a polícia, mas também no poder do voto para modificar a situação. Com isso, chega-se à ideia de guerra, cujo significado é evocado como salvo conduto para matar, especialmente jovens negros do sexo masculino.
Entre os 117 “suspeitos” mortos no massacre do 28 de outubro, a Polícia Civil divulgou a identificação de 115 deles. Desses, 71 eram jovens (até 29 anos), representando cerca de 62% do total. Desse universo, 35 tinham no máximo 24 anos, sendo que dois eram adolescentes (14 e 17 anos). Dos jovens com até 24 anos, 10 vieram de outros estados, todos com anotação criminal. Entre os fluminenses, 12 não possuíam anotação criminal, e 6 tinham ocorrência como adolescente infrator, e apenas 7 tinham anotação criminal. Esse balanço indica que entre os 25 jovens fluminenses com até 24 anos mortos na operação policial, apenas 7 tinham uma anotação criminal, sendo que um deles por “furto”. Entre os outros 18 jovens, 6 tinham cometido infração como adolescente e outros 12 nem isso.
Na operação policial do Jacarezinho, promovida pelo mesmo governo Castro, em 2021, e que era até então a mais letal da história do Rio de Janeiro (com 27 mortos considerados “suspeitos”), o perfil foi mais ou menos o mesmo. Ou seja, o que se observa é uma escalada do uso da eliminação física de jovens pobres como resposta ao controle dos territórios populares por grupos armados, sob o beneplácito da maior parte da sociedade, embotada pela ideia de guerra.
Aqui, interessa mobilizar o argumento de Nancy Fraser (2024), ao demonstrar como o capitalismo se sustenta canibalizando fatores como a natureza, e a esfera do cuidado, familiar e comunitário. De especial interesse para nosso argumento é o que ela define como “virada epistêmica essencial”, que se dá quando se desloca o foco na dimensão da produção de mercadoria para a dimensão da reprodução social, que está associada “às formas de provimento, cuidado e interação que produzem e sustentam os seres humanos e os vínculos sociais” (p.29). Vista desse ângulo, a lógica dos grupos armados pode ser encarada como manifestação de um capitalismo periférico, que ataca as bases de reprodução social onde ela é mais frágil, submetendo adolescentes e jovens pobres às formas mais brutalizadas de atividades lucrativas.
Enquanto atividade econômica, grupos armados precisam dos jovens precarizados, mas é como parte de uma dinâmica de guerra que sua ação se infiltra na dimensão da moralidade das famílias, quase sempre encarnada na figura das mães. Porque são, sobretudo as mães que moram nas favelas e periferias e que tanto se empenham para educar seus filhos, que têm que lidar, e às vezes sem sucesso, com o risco de que eles ingressem nas fileiras dos grupos armados, atraídos menos pelas remunerações modestas e mais pelo forte apelo simbólico de poder, cuja existência depende da lógica da guerra.
É no sofrimento dessas mulheres, derrotadas por uma dinâmica externa e que canibaliza a esfera da reprodução na qual elas atuam, que está contido o elo moral que jamais poderia se romper. Longe de ser apenas uma tragédia pessoal, essa ruptura representa algo maior, revelando cidadelas familiares e comunitárias expostas às formas mais perversas de capitalismo. Essa ruptura moral se completa com a reação de apoio de parte da sociedade às chacinas. Com ela, chega-se ao limiar último em face da loucura coletiva, da perda de humanidade, da barbárie.
A comovente fala de Ana Claudia Almeida, 47 anos, mãe de um dos jovens mortos do fatídico 28 de outubro, e que veio de Belém para resgatar o corpo de seu filho, é, sob muitos aspectos, reveladora:
“Olha, não passo a mão na cabeça dele, nunca passei. Ele é errado, estava fazendo coisa errada. Sou trabalhadora, nunca peguei as coisas de ninguém. Não queria essa vida para ele. É muito triste (...). Quando descobri foi uma tristeza. Conversava muito com ele, dizia que a gente não precisa disso pra sobreviver. Mas a mãe é sempre a última a saber. O que mais me entristece é que ele morreu para defender o crime, não foi pela mãe, por um irmão ou pelos filhos. Ele estava aqui foragido, e se manteve lá (no Complexo da Penha) para não ser preso” (Entrevista concedida a Henrique Barbi, Extra.globo.com, 01/11/2025).
Sua fala emociona pela dor e sentimento de impotência, mas também pela lucidez contida no seu desabafo, quando diz que seu filho “morreu para defender o crime”. De fato, é justamente neste ponto que a dinâmica de atuação dos grupos armados nas favelas do Rio se manifesta da forma mais brutal: o uso de adolescentes e jovens como corpos prontos ao sacrifício, para morrer como “soldados” de uma guerra que, na verdade, é uma ardilosa construção ideológica, para a qual não falta o apoio recorrente da grande mídia local, que reforça o uso acrítico do significante que afinal justificaria a reação do estado. A ação policial, realizada de modo metódico pelo estado, retroalimenta a dinâmica, promovendo operações cada vez mais sangrentas, que quase sempre resultam apenas na contagem de mortos, inclusive de policiais, mas sem arranhar o funcionamento dos grupos armados. Bem ao contrário, elas reforçam seu poderio bélico, e sua capacidade de mobilizar um capital simbólico espúrio que produz sensação de poder entre os jovens dispostos ao sacrifício. Não espanta que às operações têm bastado matar os jovens dispostos ao sacrifício da inglória morte para “defender o crime”.
Sob esse teatro da guerra, os chefes acumulam poder econômico e político, configurando talvez a mais brutal manifestação da desigualdade social brasileira, que fabrica esses jovens. Para enfrentá-la, um bom caminho seria o de se pensar concretamente em como apoiar mães como a Ana Claudia, no seu esforço diuturno para proteger seus filhos em face da tragédia da entrada no mundo do crime. A pergunta preliminar que precisa ser feita é o que de fato o Estado e/ou a sociedade fazem para apoiar mães como ela? Uma resposta, também provisória, é a de que a sociedade faz muito, mas menos do que poderia, porque a lógica da guerra lhe constrange, inibe, ao promover um sentimento difuso de medo, que faz com que projetos e organizações sociais, incluindo igrejas e lideranças religiosas, tenham sua capacidade comprometida. Por isso, nesse momento, precisamos voltar nossa atenção ao papel do Estado diante da grande complexidade da questão, que, afinal, não nos esqueçamos, está enraizada como lógica sistêmica do capitalismo. Daí que talvez, nesse momento, devamos prestar especial atenção ao papel que pode ser jogado pela escola pública, e muito especialmente a escola de Ensino Médio, etapa na qual a transição para a vida adulta acontece. A escola pública de Ensino Médio ainda é uma fronteira, que só recentemente vem sendo ocupada pelas famílias populares, e que por isso mesmo representa uma alternativa ainda não plenamente testada enquanto ingrediente capaz de minar a lógica capitalista dos grupos armados, no uso e abuso que praticam dos corpos, energia e expectativas de jovens pobres. Porque, além de lugar de proteção, a escola também pode criar novos horizontes para os jovens pobres.
Sobre isso, como se pode verificar no gráfico abaixo, há 17 anos atrás, menos de 50% dos adolescentes brasileiros entre 15 a 17 anos estavam na escola (em 2000, esse percentual era inferior a 35%). Entre os adolescentes autodeclarados negros, esse percentual ainda estava abaixo de 40%, em 2007. Atualmente, a média nacional alcançou 76,7%, e a presença de adolescentes negros avançou 34 pontos.
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Por seu turno, a tabela que se segue indica que quase 75% dos adolescentes matriculados na rede pública de EM vivem em lares com renda domiciliar de até 1SM, e 94,3% com renda de até 2SM.

A ampliação significativa da escolarização dos adolescentes pobres e negros estaria forjando entre nós a emergência de novos sujeitos, cujo comportamento e agência estariam produzindo mudanças profundas na ordem social brasileira, com novas dinâmicas societais e novas formas de sociabilidade. A escola se instala justamente no elo entre a esfera da produção e a da reprodução. Nesse sentido, todo o esforço para assegurar a permanência do jovem no Ensino Médio é um importante aliado das mães e da família.
Aqui, merecem menção especial políticas voltadas para a permanência escolar, como o Pé-de-Meia, por exemplo, que foi lançado em novembro de 2023 pelo governo federal, e que já beneficia com incentivo financeiro cerca de 54% dos estudantes da rede estadual. A essa política, naturalmente, há que se juntar um conjunto muito mais amplo de investimentos, que também dependem dos governos estaduais e municipais, envolvendo redes de proteção e apoio, mobilidade urbana, e abertura de oportunidades de inserção na universidade, na escola técnica e em programas de primeiro emprego. No caso do Rio de Janeiro, isso é especialmente importante, porque se sobra vontade para operações policiais, falta atenção à escola estadual de Ensino Médio. Quanto a isso, o fato de ostentar o penúltimo pior IDEB entre as unidades da federação na avaliação de 2023 fala por si.
A economia territorializada dos grupos armados, que subjuga os moradores das favelas, precisa ser combatida com ações articuladas das policiais estaduais e federais, voltadas para a sua asfixia financeira e bélica. Mas é na política para a juventude que está o coração da batalha ética e moral da sociedade. Com a redução drástica dos jovens nos grupos armados, a lógica territorializada do crime seria profundamente alterada, saindo de cena esse sujeito, cuja presença ostensiva, na verdade, não é em si necessária para a lógica econômica dos grupos armados, mas lhe empresta corpos, prontos para serem sacrificados pela lógica da guerra que alimenta a necropolítica. Com a saída de cena dos jovens travestidos de “soldados”, os policiais também ficariam mais protegidos, ao invés de serem expostos a riscos desnecessários e inaceitáveis, sob a falaciosa ideia de guerra, que também converte seus pares mortos em número na estatística de vítimas.
O foco na juventude e na escola nos aproxima de mães como Ana Claudia. Porque sua derrota representa, na verdade, a derrota moral da sociedade.
Sugestões de leitura
FRASER, Nancy. Capitalismo canibal. São Paulo: Autonomia Literária, 2024.
MARCELO BAUMAN BURGOS (burgos@puc-rio.br) é professor do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e atua como pesquisador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF) desde 2010. Tem experiência de pesquisa e textos publicados nas áreas de Sociologia, com ênfase em Sociologia Urbana, sociologia da educação e sociologia do direito, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, cidade, cidadania, acesso à justiça, direito e judiciário.
Publicado em: 29/04/2026
DILEMAS: REFLEXÕES é uma seção especial (blog) de DILEMAS: REVISTA DE ESTUDOS DE CONFLITO E CONTROLE SOCIAL (ISSN Eletrônico: 2178-2792; ISSN Impresso: 1983-5922) e é publicada pelo Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, integrante do INCT/CNPq INViPS. DILEMAS: REFLEXÕES não se responsabiliza por informações, opiniões e outros elementos dos textos aqui publicados. Estes são de inteira responsabilidade de seus autores
